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Indústria recupera perda de maio, mas prejudica trimestre


Com uma alta de 13,1% em junho, na comparação mensal ajustada, a produção industrial neutralizou a queda de 11% registrada em maio, sob efeito da greve dos caminhoneiros. Ainda assim, o tombo de maio prejudicou a média trimestral e o setor encerrou o período de abril a junho com uma retração de 2,5% na atividade, em relação ao primeiro trimestre, feito o ajuste sazonal.

Diante do resultado, alguns analistas já esperam um Produto Interno Bruto (PIB) negativo para o segundo trimestre. O fraco desempenho, no entanto, deverá ser compensando por um terceiro trimestre mais forte, com pouco efeito sobre o resultado anual, já revisado para baixo sob impacto da crise de abastecimento gerada pela paralisação dos condutores. Para a segunda metade do ano, os economistas esperam uma volta da produção industrial ao ritmo de recuperação gradual, visto antes do protesto.

Entre as quatro categorias econômicas acompanhadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a maior recuperação foi a de bens de consumo duráveis, com alta de 34,4% em junho - puxada pela produção de veículos (47%) -, após tombo de 26,1% em maio. As outras três categorias também elevaram sua produção na passagem mensal, com avanços em bens de capital (25,6%), intermediários (7,4%) e bens de consumo semi e não duráveis (15,7%). Por ramos de atividade, 22 dos 26 segmentos analisados tiveram crescimento.

"A gente rodou, rodou, e acabou no mesmo lugar", avalia Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil. Com o avanço de junho, o setor ficou em nível ligeiramente acima de abril (0,7%). "O resultado é bom no sentido de tirar o peso dos 11% de queda do mês anterior, mas não quer dizer que estamos numa situação tranquila", completa.

Como o desempenho veio basicamente em linha com o esperado pelo banco, Leal avalia que sua estimativa para o PIB do segundo trimestre deverá ser mantida em queda de 0,2%. Também o Haitong espera um PIB em retração de abril a junho, na comparação trimestral dessazonalizada.

No entanto, a base reprimida do segundo trimestre e o carregamento estatístico favorável deixado pelo junho forte devem trazer números melhores para o período de julho a agosto, tanto para a indústria, como para o PIB. No setor produtivo, junho deixa um carregamento estatístico de 4,3% para o terceiro trimestre.

"Se não houver grandes alterações nessa dinâmica de retomada gradual, [o avanço da indústria no terceiro trimestre] vai ficar nessa casa de 4% a 4,5%", diz Jankiel Santos, economista-chefe do Haitong.

Apesar dos temores de que o efeito da greve sobre a confiança pudesse afetar de maneira permanente a produção industrial no restante do ano, o economista avalia que os primeiros números do terceiro trimestre indicam a continuidade da retomada gradual. "A greve foi realmente algo pontual e, à frente voltaremos à trajetória anterior" afirma.

Entre os indicadores antecedentes já divulgados, os emplacamentos de veículos cresceram 3,4% em junho já descontados os efeitos sazonais, conforme cálculos do Bradesco sobre dados da Fenabrave. Já o índice dos gerentes de compras (PMI) do setor industrial do Brasil subiu de 49,8 pontos em junho para 50,5 em julho, conforme a IHS Markit. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) da FGV ficou estável entre junho e julho, em 100,1 pontos.

Também com base em indicadores antecedentes, o Itaú calcula preliminarmente que a produção industrial caiu 1,5% em julho, na base mensal dessazonalizada, o que representaria um avanço de 2,1% na comparação anual.

Para Margarida Gutierrez, professora da UFRJ, embora o tombo da produção industrial em maio tenha sido totalmente revertido em junho, os efeitos da paralisação dos caminhoneiros sobre a economia serão mais perenes. "A indústria zerou as perdas, mas os indicadores de confiança seguem engatinhando", afirma. A opinião é compartilhada por Leal, do ABC Brasil,para quem a antecipação da incerteza eleitoral foi a pior herança da greve.

Fonte: Valor Econômico